José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Até mais ver

[Para quem entrou inadvertidamente neste blog, sem saber que ele foi extinto: aqui vai meu novo endereço: http://blogdozegeraldo.wordpress.com. Visitem, comentem, divulguem. Obrigado. Abraços a todos.]

Amigos e amigas: por motivos que não cabe explicar aqui, este é o último post deste blog. Nossa última conversa neste espaço. Pelo menos para mim, foi bom enquanto durou. Aprendi muito com as críticas, opiniões, comentários, dicas, diatribes e indicações dos leitores, verdadeiros co-autores do blog. Agradeço a todos pela paciência e colaboração.

Espero que nos reencontremos em breve. Se eu retomar o blog num novo endereço, os interessados ficarão sabendo.

Àqueles que gostam de acompanhar o que escrevo sobre cinema, aproveito para informar que segue firme e forte minha coluna semanal na revista Carta Capital, a "Calçada da memória".

Para não dar um tom melancólico a esta despedida, fica aqui como última imagem uma foto feita por Wayne Miller em 1958, num cinema americano (cortesia de minha amiga Rosane Pavam). Para mim, ela resume o encanto do cinema. Até mais ver, até ver mais. Como diz o Luiz Melodia, tá tudo solto por aí.

 

Escrito por José Geraldo Couto às 09h25

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Malu, a crítica, o público

Os críticos de cinema são (somos) frequentemente acusados de arrogância e esnobismo por contrariar o senso comum e exaltar filmes ignorados ou abominados pela maioria dos espectadores - e por ignorar ou abominar, por sua (nossa) vez, alguns grandes sucessos de bilheteria. A questão chegou a ser, anos atrás, objeto de discussão por um ombudsman da Folha, preocupado com o fosso que ele detectava entre a opinão dos críticos do jornal e a opinião dos leitores.

Esse desacordo é, desde logo, inevitável. O papel do crítico não é o de adular o gosto do leitor/espectador, mas sim o de procurar ajudá-lo a ampliar e aprimorar o seu olhar, o de chamar a atenção para aspectos de construção e linguagem que poderiam passar despercebidos numa visão mais cândida, apressada e passiva. Pelo menos é essa a perspectiva crítica que me interessa. Nela, frequentemente o crítico entra em atrito com seu leitor, ao golpear crenças arraigadas, desestabilizar o chão das certezas, introduzir o desconforto da dúvida.

(Como leitor, gosto das críticas que me desafiam, que me forçam a rever com outros olhos os filmes que acabei de ver, que me obrigam a pensar, que me ampliam a sensibilidade e aguçam a visão. Mas isso não vem ao caso.)

Terreno comum

O que me parece essencial (e que nem sempre conseguimos) é estabelecer um terreno comum que propicie o diálogo entre crítico e leitor, de modo a diminuir ou mesmo abolir o tal fosso referido no começo deste texto.

Na construção desse terreno comum, um papel importante, a meu ver, é desempenhado pelos filmes que eu chamaria, na falta de denominação melhor, de "entretenimento inteligente". Refiro-me àquelas obras que não intimidam o espectador e ao mesmo tempo não o tapeiam com efeitos fáceis, fórmulas repetitivas, apelações sentimentais. Filmes, em suma, que emocionam e divertem respeitando a inteligência e a sensibilidade do público.

Tudo isso para falar da satisfação que me dá quando entra em cartaz um filme como Malu de bicicleta, de Flávio Tambellini, baseado no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva.

Sinopse possível: um playboy paulistano (Marcelo Serrado), jovem empresário da noite, é atropelado pela bicicleta de uma linda moça carioca (Fernanda de Freitas), numa ciclovia da zona sul do Rio. O acaso engendra um romance, no velho e bom esquema "boy meets girl".

Desse ponto de partida, Tambellini e Rubens Paiva constroem uma deliciosa e adulta comédia dramática de costumes, atualizando para nossa época uma linhagem de amor/dor/humor que remonta a Todas as mulheres do mundo (1967), de Domingos Oliveira, obra com a qual tem mais de um ponto em comum.

Não há nada de muito novo ou radical na narrativa, mas suas elipses são engenhosas no sentido de expressar o ciúme paranoico do protagonista e de envolver o espectador em suas dúvidas. A instabilidade das relações amorosas de nosso tempo, a intermitência dos afetos, a dispersão dos interesses, tudo isso perpassa e move de maneira sutil o filme de Tambellini.

Leveza e frescor

A imagem da moça bonita de bicicleta, com tudo o que exprime de leveza, frescor e fugacidade, parece ter pautado toda a construção do filme, dos diálogos aos movimentos de câmera, da montagem à trilha sonora - sem falar do trabalho preciso de casting e direção de atores.

Alguns personagens secundários merecem destaque, como a ex-namorada agressiva do protagonista (vivida pela sempre ótima Maria Manoella) e o funcionário da casa noturna dele, transformado em conselheiro sentimental (o excelente Marcos Cesana, morto prematuramente no ano passado).

Filmes como Malu de bicileta, É proibido fumar (Anna Muylaert), As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky), Antes que o mundo acabe (Ana Luiza Azevedo) e o inédito Riscado (Gustavo Pizzi) mostram que existe cinema digno, belo e inteligente no grande espaço entre as exigências de um Godard (ou a aridez de um Kiarostami, ou a estranheza de um Apichatpong Weerasethakul) e a estupidez ignóbil de um De pernas para o ar.

É uma pena que, no nosso estrangulado circuito exibidor, esses filmes tão agradáveis e estimulantes não venham tendo o público que merecem. Mas essa é uma outra história. Para o leitor que aturou este meu palavreado até agora, aqui vai um brinde, o trailer de Malu de bicicleta.

 

Escrito por José Geraldo Couto às 13h56

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Tiradentes liberta

Quae sera tamen. Voltei hoje do coração de Minas, onde participei do júri da crítica da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Estar lá durante a semana que passou foi uma experiência revigorante.

Um punhado de filmes plenos de vitalidade, feitos principalmente por jovens, participação entusiástica do público, debate não menos entusiástico de ideias e projetos por parte de realizadores, críticos e espectadores - tudo isso produziu em mim e em muitos amigos a sensação de que estamos vivendo um momento privilegiado de renovação e abertura de horizontes.

Além dos grandes vencedores do festival - o longa Os residentes, de Tiago Mata Machado, e o curta Vó Maria, de Tomás von der Osten -, vários outros filmes se destacaram, dentro e fora da competição, e mereceriam comentários aqui. Ainda os estou digerindo e falarei deles aqui aos poucos, "devagarzim", para dizer à maneira mineira.

Poética dos afetos

Uma primeira impressão que ficou, ainda à espera de elaboração, é a de que essa nova safra de filmes, a despeito de sua extrema diversidade formal e temática, apresenta um traço predominante comum, que poderíamos definir provisoriamente como uma "poética dos afetos", um olhar ao mesmo tempo crítico e amoroso para os indivíduos de nosso tempo em suas relações com o que lhes é imediato: os amigos, o trabalho, o amor.

Isso aparece num filme-ensaio saturado de referências cinematográficas, estéticas e literárias, como Os residentes, mas também, de modo radicalmente diferente, no surpreendente Transeunte, de Erik Rocha, que deixa de lado o verbo inflamado de seus filmes anteriores para acompanhar quase em silêncio, com uma câmera sutil, a trajetória cotidiana de um homem solitário da metrópole. Voltaremos em breve a esses dois filmes, como também ao encantador Riscado, de Gustavo Pizzi, comédia amarga sobre uma atriz que rala muito para não aviltar a sua ética e o seu talento.

Outra bela descoberta (descoberta para mim, pois o filme já tinha sido super premiado em Brasília) foi o O céu sobre os ombros, retrato fragmentário e amoroso de três personagens ao mesmo tempo comuns e singulares da baixa classe média de Belo Horizonte. Para mostrar como o diretor Sérgio Borges escapa dos estereótipos, basta dizer que um de seus protagonistas é um jovem Hare Krishna que participa da Galoucura, a furiosa torcida organizada do Atlético Mineiro. Outro é uma transexual que durante o dia dá aulas de antropologia repletas de referências a Foucault e Judith Butler, e à noite faz michê como travesti nas ruas da cidade.

Criação coletiva

O luminoso documentário Santos Dumont: pré-cineasta?, de Carlos Adriano, explora o fértil entrecruzamento entre os primórdios do cinema e os primórdios da aviação a partir da descoberta de preciosas imagens mutoscópicas do inventor brasileiro apresentando um projeto de dirígivel a Charles Stewart Rolls (fundador da Rolls-Royce). Mesmo esse filme de amplo alcance histórico e estético é perpassado também por uma vibração de afeto pessoal: é, entre muitas outras coisas, uma declaração de amor ao co-autor do documentário, o pesquisador e cineasta Bernardo Vorobow, morto no ano retrasado.

Perdi, por incompatibilidade de horários, o muito elogiado Os monstros, produção cearense de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti. Aliás, os longas e curtas realizados em regime de criação coletiva, sinergética, são uma tônica da nova safra: Os residentes, Os monstros, Riscado, A alegria (outro que perdi) e muitos outros foram feitos assim.

Paradoxalmente, se eu tivesse que destacar um único filme exibido em Tiradentes, seria um que tem pouco ou nada a ver com essa vertente lírica, dos afetos pessoais cotidianos e da busca de novos laços e novos lugares no mundo. Estou falando do extraordinário Ex-Isto, ensaio poético de Cao Guimarães inspirado (devia dizer "inspiradíssimo") no romance Catatau, de Paulo Leminski. Com um talento generoso e maduro, Cao atualiza, reverberando-a, a fecunda especulação de Leminski, a saber: o que aconteceria se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com a entourage de Mauricio de Nassau, durante a ocupação holandesa de Pernambuco no século 17? O diretor encontrou no ator João Miguel um parceiro artístico tão corajoso, lúcido e delirante quanto ele próprio. O resultado é não menos do que brilhante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 22h28

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La maman et la putain, obra-prima em dvd

Acaba de sair em DVD (pela Lume) um filme essencial, uma obra-prima incontornável dos anos 70 que, até onde eu sei, nunca foi exibida comercialmente no Brasil: A mãe e a puta (1973), de Jean Eustache.

Eustache (1938-81), cineasta vindo da província, autodidata, outsider, crítico da Cahiers du Cinéma e ocasional companheiro de viagem da Nouvelle Vague, filmou relativamente pouco (só três longas de ficção, além de documentários de variadas metragens) e acabou se matando aos 43 anos.

A mãe e a puta causou escândalo no festival de Cannes, onde ganhou o prêmio especial do júri e o da Fipresci (federação internacional de críticos de cinema). A grande imprensa francesa o acusou de imoral e obsceno. Daí em diante ganhou aura de filme mítico e maldito.

A fama se justifica. A partir de uma situação recorrente no cinema francês - as movediças relações amorosas contemporâneas, com seus flertes, triângulos e pequenas traições -, Eustache conduz o espectador, quase imperceptivelmente, para os abismos interiores de seus personagens.

Tempos nada mortos

Seu método é o de deixar aflorar os fatos dramáticos decisivos em meio ao fluxo dos acontecimentos banais. Insistir nos tempos mortos até que revelem a vida que pulsa neles.

De início os personagens parecem saídos de um filme de Truffaut, Godard ou Rohmer: o inquieto e desocupado Alexandre (Jean-Pierre Léaud) mora com a vendedora Marie (Bernadette Lafont), mas vive flertando pelos cafés parisienses. Um dia conhece uma enfermeira promíscua, Veronika (Françoise Lebrun), e a atrai para um estranho e espinhoso triângulo.

Como em Truffaut e Godard, os personagens, em especial Alexandre, são saturados de literatura e cinema, preenchem suas longas falas com citações, parodiam ou glosam outras criaturas de ficção. Mas não há ali o lirismo envolvente de Truffaut, nem o brilho epifânico de Godard, nem a composição elegante de Rohmer. É tudo mais duro e implacável, como se Eustache filmasse uma espécie de ressaca pós-Nouvelle Vague, pós-utopias libertárias de 68, pós-revolução sexual, pós-tudo. Um desencanto amargo e radical, sem concessões.

Poesia áspera

Rodado num preto e branco "antigo", granulado, o filme mantém quase sempre as bordas do quadro na penumbra ou na escuridão, sobretudo nos interiores, o que produz um efeito curioso: por mais que os personagens se exponham em seu discurso e em seus gestos, por mais que busquem a transparência, persiste um resíduo de mistério que eles não alcançam. Certas cenas, como a do célebre monólogo de Veronika anexado aqui abaixo, remetem irresistivelmente à iluminação trêmula (e metafísica) de certos filmes mudos de Murnau, Griffith ou Dreyer. Ou talvez seja apenas o rosto de camafeu de Françoise Lebrun que cause essa impressão.

Na poesia áspera de Eustache, a música só aparece no interior da diegese, ou seja, quando produzida em cena, por exemplo por um rádio ou toca-discos. Dada a sua escassez, toda vez que ela aparece, rompendo a teia sonora das falas e ruídos gravados em som direto, seu impacto é tremendo. De Mozart a Marlene Dietrich, de Offenbach a Edith Piaf, passando por Fréhel e Deep Purple, a música fala, introduz uma outra dimensão no drama exposto.

"Meus filmes são tão autobiográficos quanto pode ser a ficção", declarou Eustache. Há quem diga que a trama de A mãe e a puta é inspirada na história real do diretor com a atriz Françoise Lebrun. Pouco importa, do ponto de vista da crítica ou do público. Se bem que, se for verdade, o monólogo a seguir ganha uma densidade ainda mais dolorosa.

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 14h55

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Buñuel na veia

A programação alternativa de cinema tem sido generosa nos últimos meses em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Retrospectivas substanciosas de cineastas essenciais como John Ford, Yasujiro Ozu, Pedro Costa, Hou Hsiao-Hsien e Michael Powell proporcionaram deleite e enriqueceram a cultura cinematográfica dos espectadores dessas duas capitais.

Agora é a vez de outro gigante do cinema, Luis Buñuel (1900-83), de quem o Museu de Arte Moderna do Rio está exibindo, até 30 de janeiro, 23 filmes.

Criador de um universo único e inconfundível, onde o sonho e a vigília têm a mesma espessura, e onde a fantasia é sinônimo de subversão de uma realidade intolerável, Buñuel criou algumas obras-primas absolutas, do pioneiro Um cão andaluz (1928) ao outonal, mas não menos radical, Esse obscuro objeto do desejo (1977).

Fase mexicana

Cada espectador e cada crítico tem o seu Buñuel favorito: uns elegem A bela da tarde, outros ficam com O anjo exterminador ou Viridiana. Eu fico com todos, incluindo os filmes da fase mexicana, que, por terem sido realizados com parcos recursos e muitas vezes sob encomenda, foram por muito tempo tidos como "menores" por uma crítica ávida de rótulos e classificações.

Durante décadas só se levava a sério, da fase mexicana do diretor, praticamente três títulos:Os esquecidos, Nazarin e O anjo exterminador.

Hoje ninguém questiona a grandeza e a originalidade de obras como Ensaio de um crime, Simão do Deserto ou O alucinado.

É uma pena que estejam de fora desta excelente retrospectiva dois dos filmes mexicanos mais divertidos do mestre surrealista: A ilusão viaja de bonde e El gran calavera. No primeiro, depois de uma bebedeira, dois amigos que trabalham na companhia de transportes sequestram um bonde e saem madrugada adentro pela cidade do México, só por farra. Mas, à medida que vai amanhecendo e o porre vai passando, a "vida real" invade o bonde com os personagens e situações mais inusitados. Em El gran calavera, um homem rico e egoísta também toma um porre fenomenal. Enquanto está desacordado, seus parentes resolvem lhe pregar uma peça, fazendo de conta que a família perdeu tudo e é obrigada a viver numa favela.

A ilusão viaja de bonde está disponível em DVD. El gran calavera, até onde eu sei, não.

Raros e preciosos

Em compensação, a mostra do MAM inclui preciosidades como o melodrama Don Quintín el amargo (1935) e o documentário combativo Las Hurdes ou Terra sem pão (1932), feitos na Espanha antes de Buñuel se exilar no México, e as personalíssimas adaptações que o diretor fez de clássicos da literatura como Robinson Crusoe e O morro dos ventos uivantes (Escravos do rancor ou Abismos de pasión).

Cabe apenas esperar que a retrospectiva Buñuel percorra outras cidades brasileiras, ou que elas realizem mostras semelhantes. Faz falta no cinema pasteurizado de nosso tempo uma filmografia vigorosa como a dele, revolucionária na política, na moral e na estética. "Bastará que a pupila branca da tela possa refletir a luz que lhe é própria para fazer explodir o universo", disse Buñuel certa vez. Sua obra é coerente com esse desejo.

Aqui vai, a título de aperitivo, uma sequência marcante de O fantasma da liberdade (1974). Quem a viu, jamais esquece.


 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 16h37

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Além da vida, aquém da morte

Primeira observação necessária sobre o novo Clint Eastwood: Além da vida não é um filme babaca. Poderia ser, dado o tema escorregadio (a vida depois da morte).

Segunda: se não fosse por mais nada, o filme já valeria pela extraordinária sequência inicial, de um tsunami na Tailândia. Ao contrário de tantos caça-níqueis vulgares dos últimos tempos, que começam postulando temas "profundos" e depois enredam a plateia num festival rasteiro de efeitos e correrias, Eastwood deixa o espectador estupefato, sem fôlego, diante da natureza enfurecida, para depois lançá-lo em dramas humanos desenrolados em ritmo cadenciado, sem histeria e sem alarde. Mostra de chofre a fragilidade da vida para em seguida meditar sobre a morte. Desdobramento coerente de uma obra que nas últimas décadas, em seus momentos mais empenhados (Os imperdoáveis, Sobre meninos e lobos, Menina de ouro, Gran Torino), tem refletido de modos diversos sobre essa difícil passagem.

Vida presente

O que mais me impressiona neste filme é o modo ao mesmo tempo firme e delicado como ele se volta para a vida, a palpitante e cheia de arestas vida presente, sob todas as suas múltiplas faces. Preste atenção: do terrorismo político às picaretagens místicas, das drogas pesadas à defesa do meio ambiente, da solidão urbana à delinquência juvenil, do desemprego à informação globalizada, está tudo ali, sem que se perca entretanto o foco nos três personagens centrais: o paranormal americano (Matt Damon), a jornalista francesa que sobreviveu ao tsunami (Cécile de France) e o menino inglês que perdeu o irmão gêmeo (Frankie McLaren).

A articulação dessas três histórias é, antes de tudo, uma proeza de roteiro, claro, mas a harmonia de ritmo e tom, a dosagem precisa das emoções, isso é obra da mise-en-scène madura, a um tempo clássica e inventiva, de Clint Eastwood.

O que une os aparentemente tão díspares personagens centrais, além da óbvia ligação com a morte, é a integridade moral. Os três recusam os caminhos fáceis que lhes são apresentados. Como personagens de Howard Hawks (cineasta que evidentemente está na base do cinema de Eastwood, não só na objetividade narrativa e no caráter discreto da encenação e da decupagem, mas também na crença profunda em certos valores americanos como honra, trabalho e competência), eles são duros na queda.

É como se eles nos mostrassem que viver uma vida indigna é uma morte pior do que simplesmente deixar de respirar.

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 16h52

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Réquiem por um cinema

Sou do tempo em que o Belas Artes se chamava Trianon. Leio hoje na Folha que o Belas Artes vai fechar em fevereiro, porque o dono do imóvel, um certo Flavio Maluf (que não é o filho de Paulo Maluf), quer transformar o lugar numa grande loja. Já faz tempo que a força da grana destrói muito mais coisas belas do que ergue, pelo menos em Sampa.

Ugo Giorgetti escreveu um belo artigo a respeito na mesma Folha. Luiz Zanin, com a classe de sempre, também fez o necrológio do Belas Artes em seu blog.

Não tenho muito o que acrescentar. Correndo o risco de ser inconveniente como alguém que fala mal do morto em pleno velório, lembro aqui o que disse outro amigo, o cineasta e crítico Eduardo Valente: já há algum tempo o Belas Artes vinha maltratando os filmes e o público. A programação continuava ótima, mas a projeção e o conforto deixavam a desejar.

Sei, claro, que não é esse o ponto. Também não sei se o ponto é simplesmente "o fim dos cinemas de rua", como todo mundo tem insistido. O ponto, receio, é o fim de um certo cinema, de uma certa cinefilia, de uma certa atitude diante dos filmes e do ato de ver filmes.

Lamentei, claro, o fim dos cinemões do centro (Marrocos, Metrópole, Ipiranga, Art Palácio, Comodoro, Paissandu...). A mera menção desses nomes desencadeia lembranças de cenas de filmes, de trechos de trilhas sonoras, de emoções e descobertas compartilhadas na sala escura com desconhecidos. Lamentei sobretudo o fechamento do Coral, na rua Sete de Abril, e do Marachá, na Augusta, salas onde vi meus primeiros filmes "de arte", antes mesmo de entrar na faculdade e frequentar os cineclubes universitários.

Antes de começar este texto prometi a mim mesmo evitar o tom nostálgico. O melhor, então, é parar por aqui.

Cabe só recomendar a retrospectiva que, antes de fechar as portas, o Belas Artes vai exibir a partir do dia 14, com clássicos como Quanto mais quente melhor, O passageiro, profissão: repórter e Apocalypse now.

Como homenagem ao moribundo Belas Artes e aos extintos templos do cinema de São Paulo, aqui vai o primeiro filme de Rogério Sganzerla, o curta Documentário (1966), que mostra dois jovens paulistanos perambulando entre os cinemas do centro e falando sobre... cinema. Está tudo ali. (Atenção para o delicioso diálogo em off no final, entre Sganzerla e Andrea Tonacci, diretor de fotografia do filme.) Bom proveito.

Escrito por José Geraldo Couto às 20h12

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Filmes da década

"Falam tanto de décadas que se esquecem do minuto e do milênio", escreveu Caetano Veloso num velho manifesto que ele próprio já deve ter esquecido.

Mas é inevitável, nesse fatiamento convencional que fazemos do fluxo contínuo do tempo, pensar o mundo, e nossa própria vida, em termos de décadas. Agora que estamos terminando o primeiro decênio do século 21, proliferam os balanços e as listas de "dez melhores" (livros, discos, filmes etc.).

Convidado, participei de duas enquetes desse tipo, uma do UOL, outra da revista Bravo!, para escolher os filmes da década. Para provar que o ser humano é volúvel e inconstante (ou pelo menos que eu sou), as listas que mandei para os dois veículos não são idênticas. Mais que isso: depois que enviei a mais recente delas, a do UOL, já mudei de ideia e troquei dois filmes.

Aqui vai, portanto, a minha lista nova e "definitiva". Prometo que não mexerei nela, digamos, pelos próximos 30 minutos. Como brinde de fim de ano e de década, segue abaixo o trailer daquele que seguramente foi o filme menos visto da minha lista (com exceção de Luz nas trevas, que ainda não entrou em cartaz), o impressionante Serras da desordem, de Andrea Tonacci.

Feliz década nova a todos. E aqui vai minha lista:

 

Dogville, de Lars von Trier

Cidade dos sonhos, de David Lynch

O pântano, de Lucrecia Martel

Jogo de cena, de Eduardo Coutinho

A fita branca, de Michael Haneke

Sobre meninos e lobos, de Clint Eastwood

Serras da desordem, de Andrea Tonacci

Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino

Elogio do amor, de Jean-Luc Godard

Luz nas trevas, de Helena Ignez e Ícaro Martins

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 21h48

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Para salvar o Natal

Vou confessar: não tenho paciência para o Natal.

Nada contra a alegria dos encontros familiares, a troca de afeto entre pessoas que de fato se amam, nem tampouco contra a reiteração de valores cristãos há muito abandonados na prática, como o amor ao próximo e a solidariedade.

O que me entedia e exaure é a overdose comercial e publicitária, a proliferação de discursos ocos, a feiúra decorativa, o mau gosto generalizado.

Mais ou menos pelos mesmos motivos, Pasolini, que era católico e comunista, dizia que em períodos natalinos sentia ímpetos de fugir da Itália para algum país não-cristão. O problema é que hoje, com o capitalismo globalizado e a cultura estandardizada, mesmo nos países sem tradição cristã o Natal se impôs como apoteose do consumo. Não há saída possível.

Ou talvez haja. Vasculhando na internet à procura de algum filme natalino que não fosse óbvio para postar aqui, reencontrei esta preciosidade, uma pequena epifania que não tem a ver diretamente com o Natal, mas que contém o espírito de amor e humor que me deu vontade de compartilhar com os leitores que dialogaram comigo ou simplesmente me aturaram ao longo deste ano. Divirtam-se - e prestem atenção na música.

 

Escrito por José Geraldo Couto às 11h10

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Panahi, ou a arte aprisionada

A prisão do cineasta iraniano Jafar Panahi, sua condenação a seis anos de cadeia e a um afastamento de 20 anos da atividade cinematográfica são absurdos tão grandes que nem há muito o que dizer a respeito. Artistas do mundo todo estão protestando e assinando petições, assim como festivais de primeira linha, como Cannes e Berlim.

O que podemos fazer, aqui de longe, já que o governo brasileiro não se manifesta, é ver, discutir e difundir a produção desse artista corajoso e importante.

Como amostra do cinema de Panahi (no qual se destacam também O balão branco e Fora do jogo), aqui vai o trailer de O círculo, contundente retrato da situação da mulher na sociedade teocrática iraniana. Seria oportuno a Cinemateca, o Espaço Unibanco ou um CCBB da vida programar um ciclo Panahi, numa revanche, ao menos simbólica, da arte contra a opressão.

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 19h21

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La nave de Godard

E la nave va (Fellini, 1983), Um filme falado (Manoel de Oliveira, 2003), Filme socialismo (Godard, 2010): é curioso que três dos maiores cineastas europeus tenham se servido do mesmo significante - um grande navio de passageiros navegando pelo Mediterrâneo - para tratar dos impasses e perspectivas do continente.

No filme de Godard, a viagem de transatlântico ocupa apenas a primeira e mais longa das três partes do filme, mas ela é tão forte que, a meu ver, eclipsa as demais.

Aos 80 anos, o cineasta segue mais ativo e inventivo do que nunca; portanto seria inadequado falar em "testamento", mas o fato é que na primeira parte de Filme socialismo parece estar condensada toda a visão de Godard acerca do mundo contemporâneo, em especial da Europa. Está ali também uma espécie de demonstração prática de sua fecunda ideia de que "a cultura é a regra, a arte é a exceção".

Parece haver dois mundos sobrepostos no transatlântico de Godard. Um deles é a expressão mais cabal do inferno contemporâneo, massificado, sem memória e sem transcendência: turistas de todo o planeta em descerebradas atividades coletivas: ginástica na piscina, bingo, karaokê, máquinas caça-níqueis, dança mecânica ao som de música eletrônica. O horror, o horror. É visível na própria textura do filme a aversão de Godard a esse estado de coisas em que o homem atingiu um estado de coisa: cores saturadas, enquadramentos agressivos, distorções óticas e digitais de som e imagem.

A exceção e a regra

Como que nos interstícios dessa estridente nau dos insensatos, um punhado de personagens - um criminoso de guerra, uma agente secreta russa, um policial francês, uma cantora americana (Patti Smith), um filósofo (Alain Badiou), uma ex-funcionária da ONU, um embaixador da Palestina etc. - põem em questão, por seus gestos e sobretudo por suas falas, praticamente toda a história da Europa nos últimos cem anos (as guerras, o holocausto, os deslocamentos do capital, a imigração, o colonialismo cultural, as revoluções e contra-revoluções) e suas relações ambíguas com a "periferia": a África, a Rússia, o Oriente Médio...

Os movimentos e discursos desses personagens, que trazem à tona uma Europa subterrânea, com sua memória dolorosa e sua má consciência, dão-se como que a contrapelo da conduta mecânica e superficial dos demais passageiros. Essas figuras que, de alguma maneira, resistem à nulificação na massa informe e anônima são filmadas de modo totalmente diverso: em tombadilhos desertos lavados pela chuva, em límpidos planos fixos pontuados pelo silêncio, em closes de perfil contra o mar sem fim... A exceção/arte do cinema contra a regra/cultura de nossa época.

Arte da simultaneidade

Sinto que esta minha descrição empobrece enormemente o filme, traindo por completo o seu espírito. É que, como costuma acontecer no melhor cinema de Godard, apesar da profusão dos discursos verbais, o sentido não se produz na explicação, na sucessão, na "análise", mas sim na síntese, na simultaneidade. Uma frase que é dita tem seu significado ampliado, ironizado ou negado pela imagem mostrada ou pelos acordes inseridos na trilha sonora. Como dar conta disso tudo numa resenha? Como toda verdadeira obra de arte, um filme de Godard é intraduzível em outra forma de expressão que não seja ele mesmo.

Como sempre em Godard, algumas frases soltas estão destinadas a ficar, a repercutir, a suscitar a reflexão e o debate. Aquela que já está circulando com mais força por aí é: "Os canalhas sempre existiram. A diferença é que hoje eles podem ser sinceros". Basta olhar em volta para perceber a pertinência da formulação.

Poeta da palavra matizada e modulada pela imagem (e vice-versa), o velho cineasta segue se divertindo com os trocadilhos verbo-visuais. Como na última parte de Filme socialismo, em que ao letreiro "hell as" se sucede uma vista de ruína grega. Hell as resplandece então em seus múltiplos sentidos: "inferno como" (em inglês), "que pena" (em francês: hélas) e "Grécia" (em grego). Com meia dúzia de letras e um único plano fixo, Godard produz um caleidoscópio de ideias. Eis aí sua grande arte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 16h13

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Momento Chabrol

Claude Chabrol morreu há três meses, mas seu cinema está mais vivo do que nunca.

Quem quiser uma prova dessa afirmação, pode ligar a TV nesta quarta feira, 15 de dezembro, às 22h, na TV Cultura. O excelente programa Mostra Internacional de Cinema exibirá um dos bons filmes da sua última fase, A dama de honra (2004), inspirado no romance The bridesmaid, da inglesa Ruth Rendell. Da mesma autora, Chabrol já transformara A judgement in stone no admirável Mulheres diabólicas.

Aqui, trata-se da história de um rapaz sensato e trabalhador, que mora com a mãe e que se apaixona pela esquisita dama de honra do casamento de sua irmã. Com mão de mestre, o diretor enreda o espectador cada vez mais numa trama de loucura e crime.

Prosa e poesia

Ao mesmo tempo, a distribuidora Lume acaba de lançar em DVD os dois primeiros longas-metragens de Chabrol, Nas garras do vício (1958) e Os primos (1959). É curioso, instrutivo e divertido ver os dois em sequência. Neles está contida, em embrião, grande parte do cinema que o diretor construiria nas cinco décadas seguintes. Os dois filmes dialogam lindamente e mostram por que Chabrol foi chamado de Balzac do cinema. Ambos são dramas humanos plasmados sobre uma observação crítica e sutil da vida coletiva: crônica da vida de província, no primeiro caso; crônica da vida urbana, no segundo.

Os mesmos dois atores - Gérard Blain e Jean-Claude Brialy - contracenam nos dois filmes, que configuram movimentos opostos. No primeiro, um jovem da metrópole (Brialy) volta à província e reencontra o amigo de infância (Blain, o beau Serge do título original). No segundo, é o rapaz da província (Blain) que se hospeda em Paris com o primo bon-vivant (Brialy) enquanto estuda advocacia.

O cinema de Chabrol, fluentemente narrativo, tributário de Hitchcock e do realismo clássico americano, seria qualificado como "de prosa", na célebre classificação proposta por Pasolini. Mas isso não o impede de ter momentos de intensa poesia, como é o caso em Os primos, na cena em que o primo libertino, no meio de uma festa de embalo em seu apartamento, apaga as luzes e percorre o salão com um castiçal na mão, dizendo frases retumbantes em alemão, ao som de Wagner. O mesmo Wagner (Tristão e Isolda) retornará no final. Se a primeira vez foi como farsa, a segunda será como tragédia.

Aqui vai a sequência da festa, infelizmente sem legendas. O melhor mesmo é alugar (ou comprar) o DVD.

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 00h23

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Tetro, ou a ressurreição de Coppola

Tetro, o título do novo filme de Francis Coppola, vem do nome do protagonista, Angelo Tetrocini (Vincent Gallo). Mas a palavra de origem latina tetro, que está na raiz de tétrico, significa "escuro, sem luz, sombrio, funesto". Desde logo, Tetro é um filme sobre a morte. Mas é também um filme sobre a luz.

Sua magnífica imagem inicial - uma mariposa que se debate de modo irresistível e suicida contra uma lâmpada acesa - condensa essas duas ordens de sentido. Começa ali um grande filme.

Falemos primeiro da luz, depois da morte.

Não é por acaso que o protagonista, um escritor atormentado, faz um bico como iluminador no teatro mambembe do amigo José (Rodrigo de la Serna). Não é tampouco casual que, num momento-chave do filme, em que Tetro e seu irmão caçula, Bennie (Alden Ehrenreich), estão acuados pelos faróis enlouquecidos dos carros numa avenida de Buenos Aires, o mais velho diz ao mais novo: "Não olhe para a luz". Ademais, fade-ins e lampejos de luz estourada (seja artificial, produzida por holofotes, ou natural, como a dos glaciares da Patagônia) pontuam a narrativa, ferindo de quando em quando os olhos do espectador.

Édipo retorcido

Luz demais ofusca e impede a visão tanto quanto a escuridão. Ao vasculhar, nos escritos de Tetro, o passado de sua família, Bennie corre o risco de atingir uma excessiva lucidez, em todos os sentidos dessa palavra vazada de luz. A exemplo do que ocorre com Édipo, o conhecimento absoluto pode levá-lo à cegueira.

Agora falemos da morte. A referência à tragédia de Sófocles não me parece descabida. O núcleo de Tetro é uma tortuosa e torturante relação pai-filho-irmão, atravessada pelo signo da morte. A morte do pai, a morte da(s) mãe(s), a sombra ameaçadora do suicídio.

Importa pouco saber que Coppola, como declarou em entrevista à Veja, inspirou-se em dolorosos eventos de sua história familiar. Importa mais observar, como fez Inácio Araujo na Folha, que a família sempre foi um dos eixos centrais do cinema do diretor. Importa saber como se opera a transformação da "emoção em emulsão", para usar um jogo de palavras do próprio Coppola, em referência ao processo fotográfico. Importa examinar, em suma, a forma da dor.

Ópera, balé, melodrama

Um dos encantos de Tetro consiste no fato de desdobrar, ou melhor, de refratar sua tragédia nuclear em outra formas de representação dramática: ópera, dança, teatro, melodrama. De uma versão pornô-trash do Fausto de Goethe a uma encenação do balé macabro Copelia, de Arthur Saint-Léon (inspirado em conto de E. T. Hoffmann), passando por referências a filmes como Sapatinhos Vermelhos e pela verdadeira ópera bufa do casal José-Ana, o filme é uma colcha de narrativas que se iluminam e comentam umas às outras.

O pendor operístico de Coppola se revela de modo contundente e irônico na sequência do prêmio literário Los Parricidas (nome mais do que sugestivo), num suntuoso hotel da Patagônia. O ambiente kitsch-televisivo de revista Caras, dominado pela figura extravagante da escritora-crítica Alone (Carmen Maura), contrasta com o drama secreto que se desenrola no jardim, entre Tetro e Bennie. O que parecia se encaminhar para um surrado clichê, o da apoteose do sucesso do artista até então incompreendido, toma um rumo totalmente diverso. Coppola sonega ao espectador o clímax vulgar, arrancando-o do melodrama para mergulhá-lo na tragédia. A catarse que ele oferece é muito mais penosa, profunda, surpreendente e regeneradora.

Por seu contraste entre duas narrativas simultâneas, a sequência me lembrou o momento em que, no Poderoso Chefão 3, a filha de Michael Corleone é baleada e morta na escadaria do teatro onde se encena uma ópera de Mascagni. Lá como aqui, a verdadeira tragédia se desenrola fora do palco.

Haveria muito mais coisas a comentar em Tetro: o uso da profundidade de campo, a discreta utilização da paisagem urbana da Boca, os contrapontos cômicos (o casal José-Ana, a dupla sedução de Bennie por tia e sobrinha assanhadas), os flashbacks em cores, simulando home movies em super-8, a soberba atuação de Klaus Maria Brandauer num papel duplo, a trilha musical extraordinária do argentino Oswaldo Golijov, que vai do tango à ópera, passando pelo jazz.

Mas o melhor que o leitor tem a fazer é largar este rascunho apressado e correr ao cinema para testemunhar, entre tantas mortes, o renascimento de um grande artista, Francis Ford Coppola.

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 21h44

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O enredo da rede

Nos chats na internet, sejam eles por escrito ou com som e imagem, há sempre um minúsculo delay, um descompasso de frações de segundo que frequentemente faz com que o diálogo se torne truncado ou confuso, com assuntos sobrepostos, a frase de um respondendo aquilo que o outro disse lá atrás, mas acontece que este outro já disse outra coisa depois, e assim interminavelmente.

Essa mesma sensação exasperante de que algo está se perdendo na conversa é produzida na primeira cena de A rede social, na frenética discussão entre o nerd  Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), que viria a ser um dos criadores do Facebook, e sua namorada Erica (Rooney Mara).

Mais que isso: a sobreposição, ou antes o encavalamento, parece ser o princípio que rege a construção narrativa do filme. Há dois protagonistas, Zuckerberg e seu parceiro, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), cada um deles constituindo um foco narrativo, embora o destaque maior fique com o primeiro. Há também dois processos judiciais (Saverin contra Zuckerberg; Zuckerberg e Saverin contra os irmãos Winklevoss), cujas reuniões e embates se embaralham a ponto de termos dificuldade de distinguir um do outro em certos momentos.

Do ponto de vista dramático, talvez o personagem mais interessante seja Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, retratado como um porra-louca que instaura o desequilíbrio entre os dois amigos e parceiros, atraindo mefistofelicamente um Zuckerberg até então adormecido para um delírio de grandeza e fortuna.

Brilho e superfície

Rápido, reluzente e superficial, como costumam ser os filmes de David Fincher, A rede social reproduz um mundo exatamente assim - rápido, reluzente, superficial -, o mundo dos jovens gênios milionários da internet, em que as cifras astronômicas (de dólares, de usuários, de "acessos") encobrem um assustador vazio moral, existencial e espiritual. Tudo se reduz a quem ganha mais, ou a "pegar as mais gostosas", ou a entrar no clube mais exclusivo de Harvard.

E ao final, como quando saímos de um chat na internet, fica a sensação de que perdemos alguma coisa da conversa. Por exemplo: como é que um site de acesso gratuito pode gerar tantos bilhões? Se o filme explica isso, juro que me passou batido. Talvez o livro em que ele se inspirou explique. Ou talvez seja o caso de esperar um bom documentário sobre o assunto.

Eu sei que tem muita gente adorando o filme, e que ele está destinado a ganhar Oscars e arrasar quarteirões. Não desgostei dele. Só acho que há um certo oba-oba injustificado. Vamos ver o que sobra depois que a poeira baixar.

Uma última observação: os filmes "baseados em fatos reais", daqueles em que letreiros explicam no fim o destino de cada personagem, me dão um fastio mortal. E criam no espectador mais desavisado a falsa ideia de que "foi assim mesmo que aconteceu".

Pessoalmente, prefiro os filmes baseados em fatos irreais.

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 10h07

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Complexo do Alemão, cinema americano

Nos últimos dias, as TVs abertas e fechadas mostraram o espetáculo da tomada de morros cariocas pelas forças policiais e militares. Em frente à tela, espectadores vibravam como diante de um filme de Rambo (ou Tropa de elite?).

O mal-estar causado por essa situação (refiro-me tanto aos "fatos" como à sua transformação em show midiático), em especial a ideia perigosa de que há um mal absoluto sendo extirpado à bala, me fez lembrar de um artigo que publiquei há uns oito anos no site cultural Trópico, acerca das relações perigosas entre o cinema "de ação" e o aplauso catártico às ações policiais ou militares truculentas.

Peço licença para republicá-lo aqui. Talvez seja pertinente neste momento.

O espetáculo do bem e do mal

Como o cinema de Hollywood prepara a
platéia mundial para a guerra

O clímax do típico filme de ação americano, talvez mesmo sua quintessência, é a perseguição de carro pelas ruas movimentadas de uma metrópole. Na tentativa de alcançar e deter o vilão, o herói realiza barbaridades no trânsito, atropela transeuntes, bate em outros automóveis, estilhaça vitrines, destroça hidrantes, derruba postes, explode postos de gasolina, dissemina o caos.

Nessa apoteose da destruição, tudo se justifica pela necessidade de extirpar o mal absoluto, personificado no criminoso perseguido. Pouco importam os incêndios, as balas perdidas, os pedestres pisoteados, o pânico. Danos colaterais, nada mais. Na verdade, são eles que dão cor e temperatura ao espetáculo da luta do bem contra o mal.

O que são os ataques norte-americanos ao Afeganistão senão uma reprodução magnificada dessa perseguição polícia-bandido? Os “danos colaterais” –morte de civis, destruição de hospitais, desorganização da economia, transtorno da vida cotidiana– estão justificados desde sempre pelo objetivo maior, que é a caça ao hiperterrorista Bin Laden, o mais recente avatar do mal absoluto.

Mas os filmes policiais norte-americanos têm também um mecanismo complementar ao da perseguição e que, de certa forma, a justifica: o da reação legítima ou vingança necessária. Há no vilão uma crueldade gratuita e insana que não se pode contornar ou transformar, mas apenas extinguir –mediante a eliminação física de seu portador. Antes de torcer pelo herói, e justamente para que torçamos por ele, vemos o criminoso e seu bando cometerem, com um sorriso nos lábios, atos de uma perversidade extrema.

Tomemos como paradigma desse esquema dois filmes distantes entre si no tempo, no tema e na forma, ambos dirigidos por cineastas de prestígio. Em “Sob o Domínio do Medo” (“Straw Dogs”), realizado por Sam Peckimpah em 1971, Dustin Hoffman é um pacato professor americano que se muda com a jovem esposa para um vilarejo no interior da Inglaterra. Meia dúzia de idiotas rurais, movidos por uma embriaguez bárbara e obscena, invadem a residência do casal e estupram a mulher. O pacífico professor pega uma espingarda de dois canos e mata os invasores um a um. O espectador se regozija nessas mortes em câmera lenta. A vingança necessária é catártica e prazerosa.

Em “A Testemunha” (Peter Weir, 1985), o policial interpretado por Harrison Ford é acolhido por uma comunidade Amish depois de ser ferido por um mau colega comprometido com o crime e a corrupção. Ele permanece escondido entre os Amish e toma conhecimento de sua filosofia pacifista. Um dia, numa ida de carroça à cidade com um camponês da comunidade, o policial perde a paciência com um grupo de “bad boys” que zomba agressivamente da esquisitice dos Amish. Quando um dos rapazes mete um sorvete na testa do camponês, Harrison Ford resolve revidar. O bom moço Amish ainda diz: “Esse não é o nosso estilo”. O policial responde: “Mas é o meu!”. E parte para a porrada, quebrando alguns narizes e braços, sob o aplauso da platéia.

Também nessa cena podemos detectar, em ponto menor, a maneira como o americano se coloca no mundo. À sua volta outros, como os tolos Amish, podem tentar contemporizar, brandir pacifismos e diplomacias, mas o “American way” é resolver as coisas no braço –ou na arma, que é uma extensão do braço, muito mais do que do cérebro.

Assim, não é preciso recorrer aos filmes de guerra para encontrar nas telas o retrato da disposição bélica norte-americana e o discurso que a legitima. Em seus policiais supostamente apolíticos e desinteressados, Hollywood preparou durante décadas os povos do mundo não apenas para aceitar uma ação como a atual, mas para vibrar com ela.

Escrito por José Geraldo Couto às 23h42

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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