José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

O enredo da rede

Nos chats na internet, sejam eles por escrito ou com som e imagem, há sempre um minúsculo delay, um descompasso de frações de segundo que frequentemente faz com que o diálogo se torne truncado ou confuso, com assuntos sobrepostos, a frase de um respondendo aquilo que o outro disse lá atrás, mas acontece que este outro já disse outra coisa depois, e assim interminavelmente.

Essa mesma sensação exasperante de que algo está se perdendo na conversa é produzida na primeira cena de A rede social, na frenética discussão entre o nerd  Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), que viria a ser um dos criadores do Facebook, e sua namorada Erica (Rooney Mara).

Mais que isso: a sobreposição, ou antes o encavalamento, parece ser o princípio que rege a construção narrativa do filme. Há dois protagonistas, Zuckerberg e seu parceiro, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), cada um deles constituindo um foco narrativo, embora o destaque maior fique com o primeiro. Há também dois processos judiciais (Saverin contra Zuckerberg; Zuckerberg e Saverin contra os irmãos Winklevoss), cujas reuniões e embates se embaralham a ponto de termos dificuldade de distinguir um do outro em certos momentos.

Do ponto de vista dramático, talvez o personagem mais interessante seja Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, retratado como um porra-louca que instaura o desequilíbrio entre os dois amigos e parceiros, atraindo mefistofelicamente um Zuckerberg até então adormecido para um delírio de grandeza e fortuna.

Brilho e superfície

Rápido, reluzente e superficial, como costumam ser os filmes de David Fincher, A rede social reproduz um mundo exatamente assim - rápido, reluzente, superficial -, o mundo dos jovens gênios milionários da internet, em que as cifras astronômicas (de dólares, de usuários, de "acessos") encobrem um assustador vazio moral, existencial e espiritual. Tudo se reduz a quem ganha mais, ou a "pegar as mais gostosas", ou a entrar no clube mais exclusivo de Harvard.

E ao final, como quando saímos de um chat na internet, fica a sensação de que perdemos alguma coisa da conversa. Por exemplo: como é que um site de acesso gratuito pode gerar tantos bilhões? Se o filme explica isso, juro que me passou batido. Talvez o livro em que ele se inspirou explique. Ou talvez seja o caso de esperar um bom documentário sobre o assunto.

Eu sei que tem muita gente adorando o filme, e que ele está destinado a ganhar Oscars e arrasar quarteirões. Não desgostei dele. Só acho que há um certo oba-oba injustificado. Vamos ver o que sobra depois que a poeira baixar.

Uma última observação: os filmes "baseados em fatos reais", daqueles em que letreiros explicam no fim o destino de cada personagem, me dão um fastio mortal. E criam no espectador mais desavisado a falsa ideia de que "foi assim mesmo que aconteceu".

Pessoalmente, prefiro os filmes baseados em fatos irreais.

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 10h07

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Complexo do Alemão, cinema americano

Nos últimos dias, as TVs abertas e fechadas mostraram o espetáculo da tomada de morros cariocas pelas forças policiais e militares. Em frente à tela, espectadores vibravam como diante de um filme de Rambo (ou Tropa de elite?).

O mal-estar causado por essa situação (refiro-me tanto aos "fatos" como à sua transformação em show midiático), em especial a ideia perigosa de que há um mal absoluto sendo extirpado à bala, me fez lembrar de um artigo que publiquei há uns oito anos no site cultural Trópico, acerca das relações perigosas entre o cinema "de ação" e o aplauso catártico às ações policiais ou militares truculentas.

Peço licença para republicá-lo aqui. Talvez seja pertinente neste momento.

O espetáculo do bem e do mal

Como o cinema de Hollywood prepara a
platéia mundial para a guerra

O clímax do típico filme de ação americano, talvez mesmo sua quintessência, é a perseguição de carro pelas ruas movimentadas de uma metrópole. Na tentativa de alcançar e deter o vilão, o herói realiza barbaridades no trânsito, atropela transeuntes, bate em outros automóveis, estilhaça vitrines, destroça hidrantes, derruba postes, explode postos de gasolina, dissemina o caos.

Nessa apoteose da destruição, tudo se justifica pela necessidade de extirpar o mal absoluto, personificado no criminoso perseguido. Pouco importam os incêndios, as balas perdidas, os pedestres pisoteados, o pânico. Danos colaterais, nada mais. Na verdade, são eles que dão cor e temperatura ao espetáculo da luta do bem contra o mal.

O que são os ataques norte-americanos ao Afeganistão senão uma reprodução magnificada dessa perseguição polícia-bandido? Os “danos colaterais” –morte de civis, destruição de hospitais, desorganização da economia, transtorno da vida cotidiana– estão justificados desde sempre pelo objetivo maior, que é a caça ao hiperterrorista Bin Laden, o mais recente avatar do mal absoluto.

Mas os filmes policiais norte-americanos têm também um mecanismo complementar ao da perseguição e que, de certa forma, a justifica: o da reação legítima ou vingança necessária. Há no vilão uma crueldade gratuita e insana que não se pode contornar ou transformar, mas apenas extinguir –mediante a eliminação física de seu portador. Antes de torcer pelo herói, e justamente para que torçamos por ele, vemos o criminoso e seu bando cometerem, com um sorriso nos lábios, atos de uma perversidade extrema.

Tomemos como paradigma desse esquema dois filmes distantes entre si no tempo, no tema e na forma, ambos dirigidos por cineastas de prestígio. Em “Sob o Domínio do Medo” (“Straw Dogs”), realizado por Sam Peckimpah em 1971, Dustin Hoffman é um pacato professor americano que se muda com a jovem esposa para um vilarejo no interior da Inglaterra. Meia dúzia de idiotas rurais, movidos por uma embriaguez bárbara e obscena, invadem a residência do casal e estupram a mulher. O pacífico professor pega uma espingarda de dois canos e mata os invasores um a um. O espectador se regozija nessas mortes em câmera lenta. A vingança necessária é catártica e prazerosa.

Em “A Testemunha” (Peter Weir, 1985), o policial interpretado por Harrison Ford é acolhido por uma comunidade Amish depois de ser ferido por um mau colega comprometido com o crime e a corrupção. Ele permanece escondido entre os Amish e toma conhecimento de sua filosofia pacifista. Um dia, numa ida de carroça à cidade com um camponês da comunidade, o policial perde a paciência com um grupo de “bad boys” que zomba agressivamente da esquisitice dos Amish. Quando um dos rapazes mete um sorvete na testa do camponês, Harrison Ford resolve revidar. O bom moço Amish ainda diz: “Esse não é o nosso estilo”. O policial responde: “Mas é o meu!”. E parte para a porrada, quebrando alguns narizes e braços, sob o aplauso da platéia.

Também nessa cena podemos detectar, em ponto menor, a maneira como o americano se coloca no mundo. À sua volta outros, como os tolos Amish, podem tentar contemporizar, brandir pacifismos e diplomacias, mas o “American way” é resolver as coisas no braço –ou na arma, que é uma extensão do braço, muito mais do que do cérebro.

Assim, não é preciso recorrer aos filmes de guerra para encontrar nas telas o retrato da disposição bélica norte-americana e o discurso que a legitima. Em seus policiais supostamente apolíticos e desinteressados, Hollywood preparou durante décadas os povos do mundo não apenas para aceitar uma ação como a atual, mas para vibrar com ela.

Escrito por José Geraldo Couto às 23h42

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A piada final de Monicelli

Morreu hoje, de modo insólito, um dos grandes da comédia no cinema, Mario Monicelli: aos 95 anos, jogou-se da janela do hospital em que estava internado, ao que parece para o tratamento de um câncer na próstata.

Um final coerente com o humor feroz e implacável de seus melhores filmes, como Os eternos desconhecidos, O incrível exército de Brancaleone, Os novos monstros, Meus caros amigos e Parente é serpente.

Durante muito tempo Monicelli, assim como seu contemporâneo Dino Risi, foi menos valorizado do que devia pela crítica. Esses mestres da comédia de costumes ficaram como que espremidos entre, por um lado, o grande cinema autoral de Fellini, Visconti, Antonioni, Pasolini, e por outro pelos filmes mais diretamente políticos de Rosi, Montaldo, Petri, Pontecorvo, Damiani. Hoje, quando o cinema italiano como um todo vive uma duradoura decadência, rever os filmes de Monicelli é descobrir tesouros de sutileza, inteligência e beleza.

Aqui vai, só para dar o gostinho, um trecho de Os eternos desconhecidos, em que o grande comediante Totó, no papel de um veterano meliante, tenta ensinar a um bando de assaltantes bem trapalhões (entre eles Marcello Mastroianni, Vittorio Gassman e Renato Salvatore) a arte de arrombar um cofre. O filme foi lançado em DVD pela Versátil. Infelizmente não achei trechos dele com legendas, mas acho que dá para captar pelo menos o sentido e o sabor do humor monicelliano. Divirtam-se. É a melhor homenagem possível ao velho safado.

Escrito por José Geraldo Couto às 23h24

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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