José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Tetro, ou a ressurreição de Coppola

Tetro, o título do novo filme de Francis Coppola, vem do nome do protagonista, Angelo Tetrocini (Vincent Gallo). Mas a palavra de origem latina tetro, que está na raiz de tétrico, significa "escuro, sem luz, sombrio, funesto". Desde logo, Tetro é um filme sobre a morte. Mas é também um filme sobre a luz.

Sua magnífica imagem inicial - uma mariposa que se debate de modo irresistível e suicida contra uma lâmpada acesa - condensa essas duas ordens de sentido. Começa ali um grande filme.

Falemos primeiro da luz, depois da morte.

Não é por acaso que o protagonista, um escritor atormentado, faz um bico como iluminador no teatro mambembe do amigo José (Rodrigo de la Serna). Não é tampouco casual que, num momento-chave do filme, em que Tetro e seu irmão caçula, Bennie (Alden Ehrenreich), estão acuados pelos faróis enlouquecidos dos carros numa avenida de Buenos Aires, o mais velho diz ao mais novo: "Não olhe para a luz". Ademais, fade-ins e lampejos de luz estourada (seja artificial, produzida por holofotes, ou natural, como a dos glaciares da Patagônia) pontuam a narrativa, ferindo de quando em quando os olhos do espectador.

Édipo retorcido

Luz demais ofusca e impede a visão tanto quanto a escuridão. Ao vasculhar, nos escritos de Tetro, o passado de sua família, Bennie corre o risco de atingir uma excessiva lucidez, em todos os sentidos dessa palavra vazada de luz. A exemplo do que ocorre com Édipo, o conhecimento absoluto pode levá-lo à cegueira.

Agora falemos da morte. A referência à tragédia de Sófocles não me parece descabida. O núcleo de Tetro é uma tortuosa e torturante relação pai-filho-irmão, atravessada pelo signo da morte. A morte do pai, a morte da(s) mãe(s), a sombra ameaçadora do suicídio.

Importa pouco saber que Coppola, como declarou em entrevista à Veja, inspirou-se em dolorosos eventos de sua história familiar. Importa mais observar, como fez Inácio Araujo na Folha, que a família sempre foi um dos eixos centrais do cinema do diretor. Importa saber como se opera a transformação da "emoção em emulsão", para usar um jogo de palavras do próprio Coppola, em referência ao processo fotográfico. Importa examinar, em suma, a forma da dor.

Ópera, balé, melodrama

Um dos encantos de Tetro consiste no fato de desdobrar, ou melhor, de refratar sua tragédia nuclear em outra formas de representação dramática: ópera, dança, teatro, melodrama. De uma versão pornô-trash do Fausto de Goethe a uma encenação do balé macabro Copelia, de Arthur Saint-Léon (inspirado em conto de E. T. Hoffmann), passando por referências a filmes como Sapatinhos Vermelhos e pela verdadeira ópera bufa do casal José-Ana, o filme é uma colcha de narrativas que se iluminam e comentam umas às outras.

O pendor operístico de Coppola se revela de modo contundente e irônico na sequência do prêmio literário Los Parricidas (nome mais do que sugestivo), num suntuoso hotel da Patagônia. O ambiente kitsch-televisivo de revista Caras, dominado pela figura extravagante da escritora-crítica Alone (Carmen Maura), contrasta com o drama secreto que se desenrola no jardim, entre Tetro e Bennie. O que parecia se encaminhar para um surrado clichê, o da apoteose do sucesso do artista até então incompreendido, toma um rumo totalmente diverso. Coppola sonega ao espectador o clímax vulgar, arrancando-o do melodrama para mergulhá-lo na tragédia. A catarse que ele oferece é muito mais penosa, profunda, surpreendente e regeneradora.

Por seu contraste entre duas narrativas simultâneas, a sequência me lembrou o momento em que, no Poderoso Chefão 3, a filha de Michael Corleone é baleada e morta na escadaria do teatro onde se encena uma ópera de Mascagni. Lá como aqui, a verdadeira tragédia se desenrola fora do palco.

Haveria muito mais coisas a comentar em Tetro: o uso da profundidade de campo, a discreta utilização da paisagem urbana da Boca, os contrapontos cômicos (o casal José-Ana, a dupla sedução de Bennie por tia e sobrinha assanhadas), os flashbacks em cores, simulando home movies em super-8, a soberba atuação de Klaus Maria Brandauer num papel duplo, a trilha musical extraordinária do argentino Oswaldo Golijov, que vai do tango à ópera, passando pelo jazz.

Mas o melhor que o leitor tem a fazer é largar este rascunho apressado e correr ao cinema para testemunhar, entre tantas mortes, o renascimento de um grande artista, Francis Ford Coppola.

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 21h44

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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