José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Momento Chabrol

Claude Chabrol morreu há três meses, mas seu cinema está mais vivo do que nunca.

Quem quiser uma prova dessa afirmação, pode ligar a TV nesta quarta feira, 15 de dezembro, às 22h, na TV Cultura. O excelente programa Mostra Internacional de Cinema exibirá um dos bons filmes da sua última fase, A dama de honra (2004), inspirado no romance The bridesmaid, da inglesa Ruth Rendell. Da mesma autora, Chabrol já transformara A judgement in stone no admirável Mulheres diabólicas.

Aqui, trata-se da história de um rapaz sensato e trabalhador, que mora com a mãe e que se apaixona pela esquisita dama de honra do casamento de sua irmã. Com mão de mestre, o diretor enreda o espectador cada vez mais numa trama de loucura e crime.

Prosa e poesia

Ao mesmo tempo, a distribuidora Lume acaba de lançar em DVD os dois primeiros longas-metragens de Chabrol, Nas garras do vício (1958) e Os primos (1959). É curioso, instrutivo e divertido ver os dois em sequência. Neles está contida, em embrião, grande parte do cinema que o diretor construiria nas cinco décadas seguintes. Os dois filmes dialogam lindamente e mostram por que Chabrol foi chamado de Balzac do cinema. Ambos são dramas humanos plasmados sobre uma observação crítica e sutil da vida coletiva: crônica da vida de província, no primeiro caso; crônica da vida urbana, no segundo.

Os mesmos dois atores - Gérard Blain e Jean-Claude Brialy - contracenam nos dois filmes, que configuram movimentos opostos. No primeiro, um jovem da metrópole (Brialy) volta à província e reencontra o amigo de infância (Blain, o beau Serge do título original). No segundo, é o rapaz da província (Blain) que se hospeda em Paris com o primo bon-vivant (Brialy) enquanto estuda advocacia.

O cinema de Chabrol, fluentemente narrativo, tributário de Hitchcock e do realismo clássico americano, seria qualificado como "de prosa", na célebre classificação proposta por Pasolini. Mas isso não o impede de ter momentos de intensa poesia, como é o caso em Os primos, na cena em que o primo libertino, no meio de uma festa de embalo em seu apartamento, apaga as luzes e percorre o salão com um castiçal na mão, dizendo frases retumbantes em alemão, ao som de Wagner. O mesmo Wagner (Tristão e Isolda) retornará no final. Se a primeira vez foi como farsa, a segunda será como tragédia.

Aqui vai a sequência da festa, infelizmente sem legendas. O melhor mesmo é alugar (ou comprar) o DVD.

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 00h23

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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