José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Para salvar o Natal

Vou confessar: não tenho paciência para o Natal.

Nada contra a alegria dos encontros familiares, a troca de afeto entre pessoas que de fato se amam, nem tampouco contra a reiteração de valores cristãos há muito abandonados na prática, como o amor ao próximo e a solidariedade.

O que me entedia e exaure é a overdose comercial e publicitária, a proliferação de discursos ocos, a feiúra decorativa, o mau gosto generalizado.

Mais ou menos pelos mesmos motivos, Pasolini, que era católico e comunista, dizia que em períodos natalinos sentia ímpetos de fugir da Itália para algum país não-cristão. O problema é que hoje, com o capitalismo globalizado e a cultura estandardizada, mesmo nos países sem tradição cristã o Natal se impôs como apoteose do consumo. Não há saída possível.

Ou talvez haja. Vasculhando na internet à procura de algum filme natalino que não fosse óbvio para postar aqui, reencontrei esta preciosidade, uma pequena epifania que não tem a ver diretamente com o Natal, mas que contém o espírito de amor e humor que me deu vontade de compartilhar com os leitores que dialogaram comigo ou simplesmente me aturaram ao longo deste ano. Divirtam-se - e prestem atenção na música.

 

Escrito por José Geraldo Couto às 11h10

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Panahi, ou a arte aprisionada

A prisão do cineasta iraniano Jafar Panahi, sua condenação a seis anos de cadeia e a um afastamento de 20 anos da atividade cinematográfica são absurdos tão grandes que nem há muito o que dizer a respeito. Artistas do mundo todo estão protestando e assinando petições, assim como festivais de primeira linha, como Cannes e Berlim.

O que podemos fazer, aqui de longe, já que o governo brasileiro não se manifesta, é ver, discutir e difundir a produção desse artista corajoso e importante.

Como amostra do cinema de Panahi (no qual se destacam também O balão branco e Fora do jogo), aqui vai o trailer de O círculo, contundente retrato da situação da mulher na sociedade teocrática iraniana. Seria oportuno a Cinemateca, o Espaço Unibanco ou um CCBB da vida programar um ciclo Panahi, numa revanche, ao menos simbólica, da arte contra a opressão.

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 19h21

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La nave de Godard

E la nave va (Fellini, 1983), Um filme falado (Manoel de Oliveira, 2003), Filme socialismo (Godard, 2010): é curioso que três dos maiores cineastas europeus tenham se servido do mesmo significante - um grande navio de passageiros navegando pelo Mediterrâneo - para tratar dos impasses e perspectivas do continente.

No filme de Godard, a viagem de transatlântico ocupa apenas a primeira e mais longa das três partes do filme, mas ela é tão forte que, a meu ver, eclipsa as demais.

Aos 80 anos, o cineasta segue mais ativo e inventivo do que nunca; portanto seria inadequado falar em "testamento", mas o fato é que na primeira parte de Filme socialismo parece estar condensada toda a visão de Godard acerca do mundo contemporâneo, em especial da Europa. Está ali também uma espécie de demonstração prática de sua fecunda ideia de que "a cultura é a regra, a arte é a exceção".

Parece haver dois mundos sobrepostos no transatlântico de Godard. Um deles é a expressão mais cabal do inferno contemporâneo, massificado, sem memória e sem transcendência: turistas de todo o planeta em descerebradas atividades coletivas: ginástica na piscina, bingo, karaokê, máquinas caça-níqueis, dança mecânica ao som de música eletrônica. O horror, o horror. É visível na própria textura do filme a aversão de Godard a esse estado de coisas em que o homem atingiu um estado de coisa: cores saturadas, enquadramentos agressivos, distorções óticas e digitais de som e imagem.

A exceção e a regra

Como que nos interstícios dessa estridente nau dos insensatos, um punhado de personagens - um criminoso de guerra, uma agente secreta russa, um policial francês, uma cantora americana (Patti Smith), um filósofo (Alain Badiou), uma ex-funcionária da ONU, um embaixador da Palestina etc. - põem em questão, por seus gestos e sobretudo por suas falas, praticamente toda a história da Europa nos últimos cem anos (as guerras, o holocausto, os deslocamentos do capital, a imigração, o colonialismo cultural, as revoluções e contra-revoluções) e suas relações ambíguas com a "periferia": a África, a Rússia, o Oriente Médio...

Os movimentos e discursos desses personagens, que trazem à tona uma Europa subterrânea, com sua memória dolorosa e sua má consciência, dão-se como que a contrapelo da conduta mecânica e superficial dos demais passageiros. Essas figuras que, de alguma maneira, resistem à nulificação na massa informe e anônima são filmadas de modo totalmente diverso: em tombadilhos desertos lavados pela chuva, em límpidos planos fixos pontuados pelo silêncio, em closes de perfil contra o mar sem fim... A exceção/arte do cinema contra a regra/cultura de nossa época.

Arte da simultaneidade

Sinto que esta minha descrição empobrece enormemente o filme, traindo por completo o seu espírito. É que, como costuma acontecer no melhor cinema de Godard, apesar da profusão dos discursos verbais, o sentido não se produz na explicação, na sucessão, na "análise", mas sim na síntese, na simultaneidade. Uma frase que é dita tem seu significado ampliado, ironizado ou negado pela imagem mostrada ou pelos acordes inseridos na trilha sonora. Como dar conta disso tudo numa resenha? Como toda verdadeira obra de arte, um filme de Godard é intraduzível em outra forma de expressão que não seja ele mesmo.

Como sempre em Godard, algumas frases soltas estão destinadas a ficar, a repercutir, a suscitar a reflexão e o debate. Aquela que já está circulando com mais força por aí é: "Os canalhas sempre existiram. A diferença é que hoje eles podem ser sinceros". Basta olhar em volta para perceber a pertinência da formulação.

Poeta da palavra matizada e modulada pela imagem (e vice-versa), o velho cineasta segue se divertindo com os trocadilhos verbo-visuais. Como na última parte de Filme socialismo, em que ao letreiro "hell as" se sucede uma vista de ruína grega. Hell as resplandece então em seus múltiplos sentidos: "inferno como" (em inglês), "que pena" (em francês: hélas) e "Grécia" (em grego). Com meia dúzia de letras e um único plano fixo, Godard produz um caleidoscópio de ideias. Eis aí sua grande arte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 16h13

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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