José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Réquiem por um cinema

Sou do tempo em que o Belas Artes se chamava Trianon. Leio hoje na Folha que o Belas Artes vai fechar em fevereiro, porque o dono do imóvel, um certo Flavio Maluf (que não é o filho de Paulo Maluf), quer transformar o lugar numa grande loja. Já faz tempo que a força da grana destrói muito mais coisas belas do que ergue, pelo menos em Sampa.

Ugo Giorgetti escreveu um belo artigo a respeito na mesma Folha. Luiz Zanin, com a classe de sempre, também fez o necrológio do Belas Artes em seu blog.

Não tenho muito o que acrescentar. Correndo o risco de ser inconveniente como alguém que fala mal do morto em pleno velório, lembro aqui o que disse outro amigo, o cineasta e crítico Eduardo Valente: já há algum tempo o Belas Artes vinha maltratando os filmes e o público. A programação continuava ótima, mas a projeção e o conforto deixavam a desejar.

Sei, claro, que não é esse o ponto. Também não sei se o ponto é simplesmente "o fim dos cinemas de rua", como todo mundo tem insistido. O ponto, receio, é o fim de um certo cinema, de uma certa cinefilia, de uma certa atitude diante dos filmes e do ato de ver filmes.

Lamentei, claro, o fim dos cinemões do centro (Marrocos, Metrópole, Ipiranga, Art Palácio, Comodoro, Paissandu...). A mera menção desses nomes desencadeia lembranças de cenas de filmes, de trechos de trilhas sonoras, de emoções e descobertas compartilhadas na sala escura com desconhecidos. Lamentei sobretudo o fechamento do Coral, na rua Sete de Abril, e do Marachá, na Augusta, salas onde vi meus primeiros filmes "de arte", antes mesmo de entrar na faculdade e frequentar os cineclubes universitários.

Antes de começar este texto prometi a mim mesmo evitar o tom nostálgico. O melhor, então, é parar por aqui.

Cabe só recomendar a retrospectiva que, antes de fechar as portas, o Belas Artes vai exibir a partir do dia 14, com clássicos como Quanto mais quente melhor, O passageiro, profissão: repórter e Apocalypse now.

Como homenagem ao moribundo Belas Artes e aos extintos templos do cinema de São Paulo, aqui vai o primeiro filme de Rogério Sganzerla, o curta Documentário (1966), que mostra dois jovens paulistanos perambulando entre os cinemas do centro e falando sobre... cinema. Está tudo ali. (Atenção para o delicioso diálogo em off no final, entre Sganzerla e Andrea Tonacci, diretor de fotografia do filme.) Bom proveito.

Escrito por José Geraldo Couto às 20h12

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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