José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Além da vida, aquém da morte

Primeira observação necessária sobre o novo Clint Eastwood: Além da vida não é um filme babaca. Poderia ser, dado o tema escorregadio (a vida depois da morte).

Segunda: se não fosse por mais nada, o filme já valeria pela extraordinária sequência inicial, de um tsunami na Tailândia. Ao contrário de tantos caça-níqueis vulgares dos últimos tempos, que começam postulando temas "profundos" e depois enredam a plateia num festival rasteiro de efeitos e correrias, Eastwood deixa o espectador estupefato, sem fôlego, diante da natureza enfurecida, para depois lançá-lo em dramas humanos desenrolados em ritmo cadenciado, sem histeria e sem alarde. Mostra de chofre a fragilidade da vida para em seguida meditar sobre a morte. Desdobramento coerente de uma obra que nas últimas décadas, em seus momentos mais empenhados (Os imperdoáveis, Sobre meninos e lobos, Menina de ouro, Gran Torino), tem refletido de modos diversos sobre essa difícil passagem.

Vida presente

O que mais me impressiona neste filme é o modo ao mesmo tempo firme e delicado como ele se volta para a vida, a palpitante e cheia de arestas vida presente, sob todas as suas múltiplas faces. Preste atenção: do terrorismo político às picaretagens místicas, das drogas pesadas à defesa do meio ambiente, da solidão urbana à delinquência juvenil, do desemprego à informação globalizada, está tudo ali, sem que se perca entretanto o foco nos três personagens centrais: o paranormal americano (Matt Damon), a jornalista francesa que sobreviveu ao tsunami (Cécile de France) e o menino inglês que perdeu o irmão gêmeo (Frankie McLaren).

A articulação dessas três histórias é, antes de tudo, uma proeza de roteiro, claro, mas a harmonia de ritmo e tom, a dosagem precisa das emoções, isso é obra da mise-en-scène madura, a um tempo clássica e inventiva, de Clint Eastwood.

O que une os aparentemente tão díspares personagens centrais, além da óbvia ligação com a morte, é a integridade moral. Os três recusam os caminhos fáceis que lhes são apresentados. Como personagens de Howard Hawks (cineasta que evidentemente está na base do cinema de Eastwood, não só na objetividade narrativa e no caráter discreto da encenação e da decupagem, mas também na crença profunda em certos valores americanos como honra, trabalho e competência), eles são duros na queda.

É como se eles nos mostrassem que viver uma vida indigna é uma morte pior do que simplesmente deixar de respirar.

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 16h52

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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