José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

La maman et la putain, obra-prima em dvd

Acaba de sair em DVD (pela Lume) um filme essencial, uma obra-prima incontornável dos anos 70 que, até onde eu sei, nunca foi exibida comercialmente no Brasil: A mãe e a puta (1973), de Jean Eustache.

Eustache (1938-81), cineasta vindo da província, autodidata, outsider, crítico da Cahiers du Cinéma e ocasional companheiro de viagem da Nouvelle Vague, filmou relativamente pouco (só três longas de ficção, além de documentários de variadas metragens) e acabou se matando aos 43 anos.

A mãe e a puta causou escândalo no festival de Cannes, onde ganhou o prêmio especial do júri e o da Fipresci (federação internacional de críticos de cinema). A grande imprensa francesa o acusou de imoral e obsceno. Daí em diante ganhou aura de filme mítico e maldito.

A fama se justifica. A partir de uma situação recorrente no cinema francês - as movediças relações amorosas contemporâneas, com seus flertes, triângulos e pequenas traições -, Eustache conduz o espectador, quase imperceptivelmente, para os abismos interiores de seus personagens.

Tempos nada mortos

Seu método é o de deixar aflorar os fatos dramáticos decisivos em meio ao fluxo dos acontecimentos banais. Insistir nos tempos mortos até que revelem a vida que pulsa neles.

De início os personagens parecem saídos de um filme de Truffaut, Godard ou Rohmer: o inquieto e desocupado Alexandre (Jean-Pierre Léaud) mora com a vendedora Marie (Bernadette Lafont), mas vive flertando pelos cafés parisienses. Um dia conhece uma enfermeira promíscua, Veronika (Françoise Lebrun), e a atrai para um estranho e espinhoso triângulo.

Como em Truffaut e Godard, os personagens, em especial Alexandre, são saturados de literatura e cinema, preenchem suas longas falas com citações, parodiam ou glosam outras criaturas de ficção. Mas não há ali o lirismo envolvente de Truffaut, nem o brilho epifânico de Godard, nem a composição elegante de Rohmer. É tudo mais duro e implacável, como se Eustache filmasse uma espécie de ressaca pós-Nouvelle Vague, pós-utopias libertárias de 68, pós-revolução sexual, pós-tudo. Um desencanto amargo e radical, sem concessões.

Poesia áspera

Rodado num preto e branco "antigo", granulado, o filme mantém quase sempre as bordas do quadro na penumbra ou na escuridão, sobretudo nos interiores, o que produz um efeito curioso: por mais que os personagens se exponham em seu discurso e em seus gestos, por mais que busquem a transparência, persiste um resíduo de mistério que eles não alcançam. Certas cenas, como a do célebre monólogo de Veronika anexado aqui abaixo, remetem irresistivelmente à iluminação trêmula (e metafísica) de certos filmes mudos de Murnau, Griffith ou Dreyer. Ou talvez seja apenas o rosto de camafeu de Françoise Lebrun que cause essa impressão.

Na poesia áspera de Eustache, a música só aparece no interior da diegese, ou seja, quando produzida em cena, por exemplo por um rádio ou toca-discos. Dada a sua escassez, toda vez que ela aparece, rompendo a teia sonora das falas e ruídos gravados em som direto, seu impacto é tremendo. De Mozart a Marlene Dietrich, de Offenbach a Edith Piaf, passando por Fréhel e Deep Purple, a música fala, introduz uma outra dimensão no drama exposto.

"Meus filmes são tão autobiográficos quanto pode ser a ficção", declarou Eustache. Há quem diga que a trama de A mãe e a puta é inspirada na história real do diretor com a atriz Françoise Lebrun. Pouco importa, do ponto de vista da crítica ou do público. Se bem que, se for verdade, o monólogo a seguir ganha uma densidade ainda mais dolorosa.

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 14h55

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Buñuel na veia

A programação alternativa de cinema tem sido generosa nos últimos meses em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Retrospectivas substanciosas de cineastas essenciais como John Ford, Yasujiro Ozu, Pedro Costa, Hou Hsiao-Hsien e Michael Powell proporcionaram deleite e enriqueceram a cultura cinematográfica dos espectadores dessas duas capitais.

Agora é a vez de outro gigante do cinema, Luis Buñuel (1900-83), de quem o Museu de Arte Moderna do Rio está exibindo, até 30 de janeiro, 23 filmes.

Criador de um universo único e inconfundível, onde o sonho e a vigília têm a mesma espessura, e onde a fantasia é sinônimo de subversão de uma realidade intolerável, Buñuel criou algumas obras-primas absolutas, do pioneiro Um cão andaluz (1928) ao outonal, mas não menos radical, Esse obscuro objeto do desejo (1977).

Fase mexicana

Cada espectador e cada crítico tem o seu Buñuel favorito: uns elegem A bela da tarde, outros ficam com O anjo exterminador ou Viridiana. Eu fico com todos, incluindo os filmes da fase mexicana, que, por terem sido realizados com parcos recursos e muitas vezes sob encomenda, foram por muito tempo tidos como "menores" por uma crítica ávida de rótulos e classificações.

Durante décadas só se levava a sério, da fase mexicana do diretor, praticamente três títulos:Os esquecidos, Nazarin e O anjo exterminador.

Hoje ninguém questiona a grandeza e a originalidade de obras como Ensaio de um crime, Simão do Deserto ou O alucinado.

É uma pena que estejam de fora desta excelente retrospectiva dois dos filmes mexicanos mais divertidos do mestre surrealista: A ilusão viaja de bonde e El gran calavera. No primeiro, depois de uma bebedeira, dois amigos que trabalham na companhia de transportes sequestram um bonde e saem madrugada adentro pela cidade do México, só por farra. Mas, à medida que vai amanhecendo e o porre vai passando, a "vida real" invade o bonde com os personagens e situações mais inusitados. Em El gran calavera, um homem rico e egoísta também toma um porre fenomenal. Enquanto está desacordado, seus parentes resolvem lhe pregar uma peça, fazendo de conta que a família perdeu tudo e é obrigada a viver numa favela.

A ilusão viaja de bonde está disponível em DVD. El gran calavera, até onde eu sei, não.

Raros e preciosos

Em compensação, a mostra do MAM inclui preciosidades como o melodrama Don Quintín el amargo (1935) e o documentário combativo Las Hurdes ou Terra sem pão (1932), feitos na Espanha antes de Buñuel se exilar no México, e as personalíssimas adaptações que o diretor fez de clássicos da literatura como Robinson Crusoe e O morro dos ventos uivantes (Escravos do rancor ou Abismos de pasión).

Cabe apenas esperar que a retrospectiva Buñuel percorra outras cidades brasileiras, ou que elas realizem mostras semelhantes. Faz falta no cinema pasteurizado de nosso tempo uma filmografia vigorosa como a dele, revolucionária na política, na moral e na estética. "Bastará que a pupila branca da tela possa refletir a luz que lhe é própria para fazer explodir o universo", disse Buñuel certa vez. Sua obra é coerente com esse desejo.

Aqui vai, a título de aperitivo, uma sequência marcante de O fantasma da liberdade (1974). Quem a viu, jamais esquece.


 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 16h37

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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