José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Tiradentes liberta

Quae sera tamen. Voltei hoje do coração de Minas, onde participei do júri da crítica da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Estar lá durante a semana que passou foi uma experiência revigorante.

Um punhado de filmes plenos de vitalidade, feitos principalmente por jovens, participação entusiástica do público, debate não menos entusiástico de ideias e projetos por parte de realizadores, críticos e espectadores - tudo isso produziu em mim e em muitos amigos a sensação de que estamos vivendo um momento privilegiado de renovação e abertura de horizontes.

Além dos grandes vencedores do festival - o longa Os residentes, de Tiago Mata Machado, e o curta Vó Maria, de Tomás von der Osten -, vários outros filmes se destacaram, dentro e fora da competição, e mereceriam comentários aqui. Ainda os estou digerindo e falarei deles aqui aos poucos, "devagarzim", para dizer à maneira mineira.

Poética dos afetos

Uma primeira impressão que ficou, ainda à espera de elaboração, é a de que essa nova safra de filmes, a despeito de sua extrema diversidade formal e temática, apresenta um traço predominante comum, que poderíamos definir provisoriamente como uma "poética dos afetos", um olhar ao mesmo tempo crítico e amoroso para os indivíduos de nosso tempo em suas relações com o que lhes é imediato: os amigos, o trabalho, o amor.

Isso aparece num filme-ensaio saturado de referências cinematográficas, estéticas e literárias, como Os residentes, mas também, de modo radicalmente diferente, no surpreendente Transeunte, de Erik Rocha, que deixa de lado o verbo inflamado de seus filmes anteriores para acompanhar quase em silêncio, com uma câmera sutil, a trajetória cotidiana de um homem solitário da metrópole. Voltaremos em breve a esses dois filmes, como também ao encantador Riscado, de Gustavo Pizzi, comédia amarga sobre uma atriz que rala muito para não aviltar a sua ética e o seu talento.

Outra bela descoberta (descoberta para mim, pois o filme já tinha sido super premiado em Brasília) foi o O céu sobre os ombros, retrato fragmentário e amoroso de três personagens ao mesmo tempo comuns e singulares da baixa classe média de Belo Horizonte. Para mostrar como o diretor Sérgio Borges escapa dos estereótipos, basta dizer que um de seus protagonistas é um jovem Hare Krishna que participa da Galoucura, a furiosa torcida organizada do Atlético Mineiro. Outro é uma transexual que durante o dia dá aulas de antropologia repletas de referências a Foucault e Judith Butler, e à noite faz michê como travesti nas ruas da cidade.

Criação coletiva

O luminoso documentário Santos Dumont: pré-cineasta?, de Carlos Adriano, explora o fértil entrecruzamento entre os primórdios do cinema e os primórdios da aviação a partir da descoberta de preciosas imagens mutoscópicas do inventor brasileiro apresentando um projeto de dirígivel a Charles Stewart Rolls (fundador da Rolls-Royce). Mesmo esse filme de amplo alcance histórico e estético é perpassado também por uma vibração de afeto pessoal: é, entre muitas outras coisas, uma declaração de amor ao co-autor do documentário, o pesquisador e cineasta Bernardo Vorobow, morto no ano retrasado.

Perdi, por incompatibilidade de horários, o muito elogiado Os monstros, produção cearense de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti. Aliás, os longas e curtas realizados em regime de criação coletiva, sinergética, são uma tônica da nova safra: Os residentes, Os monstros, Riscado, A alegria (outro que perdi) e muitos outros foram feitos assim.

Paradoxalmente, se eu tivesse que destacar um único filme exibido em Tiradentes, seria um que tem pouco ou nada a ver com essa vertente lírica, dos afetos pessoais cotidianos e da busca de novos laços e novos lugares no mundo. Estou falando do extraordinário Ex-Isto, ensaio poético de Cao Guimarães inspirado (devia dizer "inspiradíssimo") no romance Catatau, de Paulo Leminski. Com um talento generoso e maduro, Cao atualiza, reverberando-a, a fecunda especulação de Leminski, a saber: o que aconteceria se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com a entourage de Mauricio de Nassau, durante a ocupação holandesa de Pernambuco no século 17? O diretor encontrou no ator João Miguel um parceiro artístico tão corajoso, lúcido e delirante quanto ele próprio. O resultado é não menos do que brilhante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Escrito por José Geraldo Couto às 22h28

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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