José Geraldo Couto

Cinema e cultura

 

Até mais ver

[Para quem entrou inadvertidamente neste blog, sem saber que ele foi extinto: aqui vai meu novo endereço: http://blogdozegeraldo.wordpress.com. Visitem, comentem, divulguem. Obrigado. Abraços a todos.]

Amigos e amigas: por motivos que não cabe explicar aqui, este é o último post deste blog. Nossa última conversa neste espaço. Pelo menos para mim, foi bom enquanto durou. Aprendi muito com as críticas, opiniões, comentários, dicas, diatribes e indicações dos leitores, verdadeiros co-autores do blog. Agradeço a todos pela paciência e colaboração.

Espero que nos reencontremos em breve. Se eu retomar o blog num novo endereço, os interessados ficarão sabendo.

Àqueles que gostam de acompanhar o que escrevo sobre cinema, aproveito para informar que segue firme e forte minha coluna semanal na revista Carta Capital, a "Calçada da memória".

Para não dar um tom melancólico a esta despedida, fica aqui como última imagem uma foto feita por Wayne Miller em 1958, num cinema americano (cortesia de minha amiga Rosane Pavam). Para mim, ela resume o encanto do cinema. Até mais ver, até ver mais. Como diz o Luiz Melodia, tá tudo solto por aí.

 

Escrito por José Geraldo Couto às 09h25

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Malu, a crítica, o público

Os críticos de cinema são (somos) frequentemente acusados de arrogância e esnobismo por contrariar o senso comum e exaltar filmes ignorados ou abominados pela maioria dos espectadores - e por ignorar ou abominar, por sua (nossa) vez, alguns grandes sucessos de bilheteria. A questão chegou a ser, anos atrás, objeto de discussão por um ombudsman da Folha, preocupado com o fosso que ele detectava entre a opinão dos críticos do jornal e a opinião dos leitores.

Esse desacordo é, desde logo, inevitável. O papel do crítico não é o de adular o gosto do leitor/espectador, mas sim o de procurar ajudá-lo a ampliar e aprimorar o seu olhar, o de chamar a atenção para aspectos de construção e linguagem que poderiam passar despercebidos numa visão mais cândida, apressada e passiva. Pelo menos é essa a perspectiva crítica que me interessa. Nela, frequentemente o crítico entra em atrito com seu leitor, ao golpear crenças arraigadas, desestabilizar o chão das certezas, introduzir o desconforto da dúvida.

(Como leitor, gosto das críticas que me desafiam, que me forçam a rever com outros olhos os filmes que acabei de ver, que me obrigam a pensar, que me ampliam a sensibilidade e aguçam a visão. Mas isso não vem ao caso.)

Terreno comum

O que me parece essencial (e que nem sempre conseguimos) é estabelecer um terreno comum que propicie o diálogo entre crítico e leitor, de modo a diminuir ou mesmo abolir o tal fosso referido no começo deste texto.

Na construção desse terreno comum, um papel importante, a meu ver, é desempenhado pelos filmes que eu chamaria, na falta de denominação melhor, de "entretenimento inteligente". Refiro-me àquelas obras que não intimidam o espectador e ao mesmo tempo não o tapeiam com efeitos fáceis, fórmulas repetitivas, apelações sentimentais. Filmes, em suma, que emocionam e divertem respeitando a inteligência e a sensibilidade do público.

Tudo isso para falar da satisfação que me dá quando entra em cartaz um filme como Malu de bicicleta, de Flávio Tambellini, baseado no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva.

Sinopse possível: um playboy paulistano (Marcelo Serrado), jovem empresário da noite, é atropelado pela bicicleta de uma linda moça carioca (Fernanda de Freitas), numa ciclovia da zona sul do Rio. O acaso engendra um romance, no velho e bom esquema "boy meets girl".

Desse ponto de partida, Tambellini e Rubens Paiva constroem uma deliciosa e adulta comédia dramática de costumes, atualizando para nossa época uma linhagem de amor/dor/humor que remonta a Todas as mulheres do mundo (1967), de Domingos Oliveira, obra com a qual tem mais de um ponto em comum.

Não há nada de muito novo ou radical na narrativa, mas suas elipses são engenhosas no sentido de expressar o ciúme paranoico do protagonista e de envolver o espectador em suas dúvidas. A instabilidade das relações amorosas de nosso tempo, a intermitência dos afetos, a dispersão dos interesses, tudo isso perpassa e move de maneira sutil o filme de Tambellini.

Leveza e frescor

A imagem da moça bonita de bicicleta, com tudo o que exprime de leveza, frescor e fugacidade, parece ter pautado toda a construção do filme, dos diálogos aos movimentos de câmera, da montagem à trilha sonora - sem falar do trabalho preciso de casting e direção de atores.

Alguns personagens secundários merecem destaque, como a ex-namorada agressiva do protagonista (vivida pela sempre ótima Maria Manoella) e o funcionário da casa noturna dele, transformado em conselheiro sentimental (o excelente Marcos Cesana, morto prematuramente no ano passado).

Filmes como Malu de bicileta, É proibido fumar (Anna Muylaert), As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky), Antes que o mundo acabe (Ana Luiza Azevedo) e o inédito Riscado (Gustavo Pizzi) mostram que existe cinema digno, belo e inteligente no grande espaço entre as exigências de um Godard (ou a aridez de um Kiarostami, ou a estranheza de um Apichatpong Weerasethakul) e a estupidez ignóbil de um De pernas para o ar.

É uma pena que, no nosso estrangulado circuito exibidor, esses filmes tão agradáveis e estimulantes não venham tendo o público que merecem. Mas essa é uma outra história. Para o leitor que aturou este meu palavreado até agora, aqui vai um brinde, o trailer de Malu de bicicleta.

 

Escrito por José Geraldo Couto às 13h56

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Blog blogdozegeraldocouto José Geraldo Couto é crítico de cinema, tradutor e colunista da Folha, onde publica semanalmente uma coluna de futebol.

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